sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O primeiro beijo.

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. 
Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? Perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra.
Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! Como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água.
O jeito era juntar saliva e foi o que fez.
Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se lhe fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, presentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, , entre arbustos estava...o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorregando pelo peito até a barriga. Em a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar.
Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água.
Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida...

Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para a frente, nem sabia mais o que fazia.
Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isto nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar.
A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: Ele...

Ele se tornara homem.






Fonte: Texto de Clarice Lispector
                                                                                   

Sexy Thanks For The Add Comments

4 comentários:

  1. Conheça outros textos, poemas e poesias de Clarice Lispector, escritora brasileira, nascida aos 10 de Dezembro de 1920 em Chechelnic na Ucrânia. Chegou ao Brasil aos dois anos de idade, pois sua família de origem judia sofreu perseguição durante a Guerra Civil Russa.

    Tenha um dia iluminado!

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  2. Se ao menos uma pessoa, em qualquer parte do mundo, tiver sido beneficiada de alguma maneira com minhas dicas, já terá valido todo o esforço e empenho dedicado a este Blog.

    Paz, saúde e prosperidade!

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  3. parabéns pelo blog e que Deus continue te iluminando.
    qual ventilador você me indica com estas caracteristicas: silencioso, com controle remoto e luminaria.
    desde já agradeço.

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  4. Olá Romildo Alves,
    Arno Max (último lançamento da Arno).
    Tenha um dia iluminado !

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